<font color=0094E0>Grande Gala de Ópera</font>

Giacomo Puccini (1858-1924)

Descendente de uma velha família de notabilizados músicos compositores de Lucca (Toscânia) – onde já no século XVIII se distinguiu outro Giacomo –, Puccini é a grande figura da ópera italiana das gerações pós-Verdi. À semelhança do seu ilustríssimo antecessor, e, aliás, por efeito directo de uma partitura verdiana, também a sua actividade composicional se esgota quase exclusivamente no terreno do teatro musical. Uma récita da Aida de Verdi a que assistiu em Pisa, no ano de 1876, causou um tal impacto na sua fina sensibilidade artística que a partir desse dia decidiu investir todo o seu generoso talento na forma ópera. Com o apoio financeiro de um tio, prosseguiu os seus estudos no afamado Conservatório de Milão. Embora tendo composto muito menos obras do que Verdi (apenas 11), o autor de La Bohème conseguiu algo de verdadeiramente extraordinário e até único: que todas as suas criações se inscrevessem no chamado grande reportório operístico. Todas as óperas do músico de Lucca são regularmente levadas à cena nos teatros líricos do mundo inteiro ou contempladas nos catálogos das editoras discográficas, e algumas delas, como La Bohème e Madama Buterfly, têm detido, desde a sua génese, há mais de um século, o recorde de representações nos palcos da Europa, assim como também da América e do Oriente. Com Manon Lescaut (1893), que foi a primeira composição sob tema escolhido pelo autor, Puccini torna-se conhecido fora de Itália. Com Tosca, La Bohème, Il tabarro e outras torna-se um dos lídimos representantes do verismo. Com o tempo e depois de períodos em que foi alvo de críticas menos abonatórias em que a sua música era acusada de ser “antiquada” , “superficial”, “ligeira” , a musicologia tem vindo a acentuar a sua real genialidade como arquitecto de sons, nomeadamente por efeito dos seus dotes no plano da instrumentação e da harmonia. Quando estava a compor a Turandot, a sua última ópera, foi-lhe diagnosticado um cancro. Os tratamentos a que se submeteu numa clínica de Bruxelas não foram bem sucedidos e Puccini acabou por morrer nessa cidade distante da sua terra natal sem ter conseguido terminar essa derradeira partitura. Dois anos depois o seu corpo foi sepultado na residência de Torre del Lago adquirida pelo compositor em 1891 após os seus primeiros sucessos cénicos. Local que é hoje uma casa-museu.

Ruggero Leoncavallo (1847-1919)

Nascido em Nápoles, foi simultaneamente músico e libretista. Os seus estudos universitários, levados a cabo em Bolonha, foram sobre literatura e não sobre música. É internacionalmente conhecido por efeito de uma única obra: Pagliacci (Palhaços). Tanto a música como o libreto dessa ópera, estreada em Milão, em 1892, são de sua autoria. É um dos representantes do verismo. Mas não conseguiu que outras partituras de sua lavra tivessem, nem de perto nem de longe, o sucesso obtido pelos Palhaços. Nem mesmo uma La Bohéme que compôs em directa oposição à obra homónima de Puccini. Leoncavallo foi um dos primeiros compositores a envolver-se no processo de edição discográfica. A célebre canção popular italiana Mattinata foi gravada pelo grande e famosíssimo Caruso em 1904, quando o fenómeno disco estava ainda a dar os seus primeiros passos. E três anos mais tarde, o próprio compositor dirigiu a primeira gravação da ópera que o tornou mundialmente conhecido até os dias de hoje.

Madama Butterfly (Puccini)

Um jovem oficial da marinha americana (o tenente Pinkerton) durante a sua estada no Japão apaixona-se por uma rapariga muito nova, uma gueixa natural desse país distante, e casa com ela de acordo com os preceitos japoneses. Dessa união nasce um filho. Mas aos olhos do oficial americano o casamento celebrado reveste-se de um exotismo que o leva a não o considerar válido, e ao regressar ao seu país decide casar-se com uma americana, celebrando outro casamento que corresponde ao seu padrão cultural, sendo por isso o único que considera autêntico. Depois de anos de paciente espera Cio-Cio-Sam (Butterfly) toma conhecimento do acontecido. Vendo-se desonrada só lhe resta sair da vida. Quando Pinkerton se apercebe do erro cometido é já demasiado tarde. O drama amoroso entre o americano e a gueixa japonesa põe em relevo o peso dos preconceitos em face do diferente, do confronto de culturas. Ópera originalmente em 2 actos – mais tarde, após várias revisões, também concebida em 3 actos – estreada em 1904, no Scala de Milão. Libreto de Giuseppe Giacosa e Luigi Illica com base numa peça de David Belasco, baseada por sua vez num texto do escritor americano John Luther Long. Puccini assistiu em 1900, em Londres, a uma representação da peça de Belasco e a forte impressão causada por esse espectáculo foi o ponto de partida para a criação da ópera.

“Bimba dagli occhi pieni di malia / Vogliatimi bene”

Grande dueto de amor do final do 1º acto da Madama Butterfly. Puccini tem aqui a ousadia de representar musicalmente uma relação sexual. É o momento em que o americano Pinkerton, oficial de marinha, e a jovem Cio-Cio-San (Butterfly), têm a sua noite de núpcias, consumando a sua união carnal. O dueto está repleto de belas frases melódicas que exprimem o calor emocional do momento amoroso. Repare-se em particular na frase de Butterfly que se inicia com as palavras «vogliatemi bene, un bene piccolino, un bene da bambino» («deseja-me bem, um bem pequenino, um bem de criança» ou seja, ama-me com amorzinho, com amor de criança) desenvolvendo-se depois num crescendo com intensa carga emocional. Uma frase em que fica retratada numa linha melódica arrebatadora toda a pureza, ingenuidade, infantilidade da jovem gueixa. O dueto termina com uma difícil nota muito aguda cantada em uníssono pelos dois amantes.

Os Palhaços (Leoncavallo)

Um intenso e violento melodrama composto no período de génese do movimento verista em Itália e que se tornou exemplo marcante dessa corrente estético-literária do século XIX. Há nesta obra um muito original efeito «matrioska», ou de boneca russa, que consiste em sucessivas integrações do teatro dentro do teatro. A ópera inicia-se com um surpreendente prólogo em que, ainda com o pano fechado, um dos cantores-actores, aquele que depois fará o papel de Tonio, mete a cabeça entre o pano de cena pedindo ao público licença para falar. Depois canta do proscénio (com o pano ainda fechado) apresentando-se como o Prólogo e fazendo uma apresentação da obra que define como sendo «uno squarcio di vita» (um pedaço de vida). Mas este Prólogo, que será o corcunda Tonio, um dos membros da companhia de actores ambulantes, transforma-se ainda em Taddeo, personagem da comédia representada dentro da ópera (em que é montado um palco dentro do palco). A acção decorre quase em tempo real, toda ela concentrada num tempo curto – a tarde de 15 de Agosto de um ano por volta de 1875 – e num espaço limitado – o povoado de Montanto di Calabria. A concisão é uma das qualidades da obra que nos fala de um duplo drama: o de um homem de meia-idade (Canio) que deixa de ser amado pela mulher que ama, a qual se deixa conquistar por um jovem e robusto aldeão que por ela nutre amor sincero; e, por outro lado, o drama do palhaço profissional que tem de fazer rir quando só deseja chorar, ocultando assim os seus verdadeiros sentimentos.
Ópera em 2 curtos actos, com libreto do próprio compositor e estreada no Teatro dal Verme de Milão em 1892.

«Vesti la giubba»

É o momento dramático em que Canio, o director da companhia ambulante, expressa a sua angústia e tristeza. O duplo drama em torno do qual toda a ópera se estrutura está expresso nesta magnífica ária de uma forma genialmente concisa: «Ri, Palhaço, sobre o teu amor destroçado. Ri-te da dor que te envenena o coração». Assim termina esta que é uma das mais celebradas árias do reportório de tenor.

La Bohème (Puccini)

Muito provavelmente terá sido esta a ópera mais vezes levada à cena nos teatros líricos do mundo inteiro. Uma popularidade obtida logo a partir da sua estreia no conceituado Teatro Régio de Turim em 1896 (sob a direcção do célebre maestro Toscanini) e que rapidamente se estendeu para fora de Itália. Conta-nos a triste história da bordadeira Mimi que se apaixona pelo poeta Rodolfo, membro de um grupo de boémios que, sem dinheiro, residem numas velhas águas-furtadas de Paris. Jogando com a popularidade da «tísica» (tuberculose), a doença do século XIX, a ópera termina com a morte de Mimi vítima dessa maleita que marcou toda uma época.

“O soave fanciulla”

Trata-se de um belíssimo dueto de amor que encerra o 1ºacto de La Bohème, de acordo com uma certa tradição cénica da ópera italiana dos anos Oitocentos. Mimi e Rodolfo, os protagonista da ópera, acabaram de se conhecer na água-furtada onde este vive e sentem-se imensamente atraídos um pelo outro. Os amigos de Rodolfo chamam-no para ir ao café, mas Rodolfo propõe a Mimi que fiquem juntos e endereça-lhe palavras de amor: «O soave fanciulla…» -- «Oh, meiga menina, … oh, doce rosto…». Mas Mimi sugere-lhe que não contrarie a vontade dos amigos e diz que quer acompanha-lo na ida ao café. Abraçados, descem ambos para a rua. «Dammi il braccio, o mia piccina… Dimmi che m’ami» (Dá-me o braço, minha pequenina … Diz-me que me amas)». Este dueto é magnífico exemplo da capacidade pucciniana de através de arrebatadoras frases melódicas e de efeitos rítmicos sustentados por uma rica instrumentação estabelecer imediata relação empática com o público – incluindo o não iniciado.

Turandot (Puccini)

Última ópera composta por Puccini em que o gosto pelas ambiências exóticas que caracterizou uma geração se combina habilmente com o verismo operista. Relata-nos a história da princesa chinesa Turandot (personagem-máscara) que, parecendo ser desprovida de sentimentos humanos, repudia o amor. Desejando preservar a sua superior pureza, a princesa estabeleceu que só casará com o homem de sangue real que for capaz de adivinhar os 3 enigmas que ela lhe proporá. Os pretendentes que fracassarem serão decapitados. Um dia, quando Turandot aparece no alto da galeria imperial, um misterioso forasteiro fica obcecado com a sua imagem e faz soar o gongo destinado a anunciar um novo candidato à mão da «princesa de gelo e de morte». Vai ser ele o primeiro a conseguir adivinhar os 3 enigmas e a ter direito a casar com Turandot, coisa que a princesa não quer aceitar. Perante essa reacção o pretendente propõe-lhe também um enigma: que ela descubra o seu nome antes da aurora. Vendo o desespero da princesa quando se aproxima a aurora, o desconhecido resolve dar-lhe uma prova definitiva do seu amor revelando-lhe a sua identidade ainda antes do nascer do Sol: ele é o príncipe Calaf, filho do rei tártaro Timur. Triunfante, Turandot declara então conhecer o nome do estrangeiro e diz: o seu nome é Amor! Assim se opera a sua humanização através do conhecimento do amor. O papel de Turandot é vocalmente um dos mais exigentes do reportório, e são muito poucas as cantoras que conseguem cantá-lo realmente bem.
Como Puccini compunha lentamente e morreu sem ter conseguido terminar este seu último trabalho, foi atribuída ao compositor Franco Alfano a tarefa de completar a partitura com base nos rascunhos e apontamentos deixados pelo Mestre. A estreia deu-se no Scala de Milão em 1926.

“Nessun dorma”

Nessun dorma
”, que ninguém durma, talvez seja hoje, no mundo inteiro, a mais conhecida ária de ópera, em virtude de ter sido popularizada pelo tenor italiano Luciano Pavarotti que repetidas vezes a cantou nos concertos dos três tenores associados aos campeonatos do mundo de futebol. A ária é cantada pelo personagem Calaf, o herói da ópera, no início da cena 1 do 3º e último acto. A princesa ordenou que em Pequim ninguém durma durante essa noite em que é preciso que todos tentem desesperadamente descobrir o nome do desconhecido, coisa que ninguém conseguirá. Calaf, ansiando pela chegada da aurora, termina dizendo: «Noite, dissipa-te! Estrelas, ocultai-vos! Ao amanhecer vencerei! («Tramontate, stelle! All’alba vincerò! Vincerò!»). Para o cantor intérprete este final é sempre um bico-de-obra, uma vez que tem que sustentar uma nota muito aguda a descoberto, em que, portanto, qualquer pequena imperfeição é logo notada e deita a perder todo o esforço anterior.

“Diecimila anni al nostro Imperatore!”

É o grande número final da ópera Turandot de Puccini, mas que já não foi directamente composto por ele, sendo o resultado do abnegado e competente labor de Franco Alfano. É um momento de grande efeito cénico, com a presença em palco de mais de uma centena de coralistas, bailarinos, figurantes, para além dos cantores principais. É o momento em que a princesa Turandot pronuncia diante do Imperador, seu pai, e de todos os membros da corte imperial, a frase chave em que se supõe ir ser revelado o nome do seu misterioso pretendente que assim se verá condenado à morte por decapitação. Em vez da esperada revelação, a desumana princesa humaniza-se ao declarar: «conheço o nome do estrangeiro! O seu nome é… Amor! («Il suo nome … è - Amor!»). A multidão repete a palavra “Amor” e em uníssono todos afirmam que a Luz do mundo é o amor – «Luce del mondo è amore!»


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